
SAÚDE MENTAL: Da loucura dos deuses à neurociência: por que entender o passado muda seu olhar sobre a saúde mental
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), “saúde mental é um estado de bem-estar mental que permite que as pessoas lidem com os momentos estressantes da vida, desenvolvam todas as suas habilidades, sejam capazes de aprender e trabalhar adequadamente e contribuam para a melhoria de sua comunidade.” Mas como chegamos até aqui? Ao longo da história da humanidade, muita coisa mudou (outras não 😕) no modo como os transtornos mentais são vistos, e, por consequência, a própria ideia de saúde mental também mudou. Olhar para esse passado ajuda a entender melhor onde estamos hoje.
Na Antiguidade grega, a loucura tinha um caráter mitológico: era um desejo dos deuses. No século IV a.C., Hipócrates, considerado o pai da medicina, propôs a teoria dos quatro humores (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra), segundo a qual o desequilíbrio entre essas substâncias causava doença, inclusive mental. No século V a.C. o filósofo, Platão também se debruçou sobre o tema. Na sua teoria das três partes da alma, racional, emotiva e instintiva, a loucura aparecia quando ocorria um desequilíbrio entre elas. Durante a Idade Média, com Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, a loucura voltou a ser interpretada como castigo divino. Tratamentos incluíam penitência, exorcismo e, não raro, tortura. No Iluminismo, a partir do século XVIII, começou-se a falar em loucura como perda da razão. Reformadores passaram a defender mudanças nos asilos de alienados, propondo tratamentos mais humanitários. Mas a segregação continuava.
Em 1793, o médico francês Philippe Pinel rompeu com essa visão exclusivamente moral e social e propôs que ela fosse vista como uma questão médica, uma doença passível de diagnóstico e tratamento. Com isso, vieram classificações, diagnósticos e a expansão dos manicômios. Por volta de 1900, Freud inaugura a psicanálise, oferecendo uma leitura subjetiva e simbólica do sofrimento psíquico.Já no século XX, vivemos uma rápida evolução nos conhecimentos sobre as doenças mentais e seus tratamentos: surgem os primeiros psicofármacos; ganha força o movimento antimanicomial; e há um salto nas neurociências, tanto que a década de 1990 foi batizada de década do cérebro.
E hoje, consideramos que o modo como a sociedade entende a loucura sempre foi um reflexo do seu momento histórico e político. Entendemos que transtornos mentais não são punições divinas, nem fraquezas de caráter, nem defeitos morais. Mas ainda julgamos, e muito! Sendo assim o estigma ainda vive, agora, disfarçado de silêncio, piada ou vergonha. A saúde mental não é o oposto da doença. É um estado dinâmico, que oscila, que se adapta, que resiste. É possível ter saúde mental mesmo convivendo com um transtorno mental. E é possível estar “sem diagnóstico” e, ainda assim, estar em sofrimento.
Entender essa história, do desejo dos deuses aos circuitos neurais de hoje, é também entender que cuidar da mente é um direito humano, e não um luxo, nem um sinal de fraqueza.
É cuidado. É coragem. É necessidade. É escolha!


